Histórico

 

 

A Chegada

 

Tudo começou em 1995 quando adquiri um lindo Pastor Belga Groenendael, cujo nome original “Sacre Coeur de Chateaux” . Foi, sem dúvida, a mais pura expressão da verdade. Batizei-o de Mürck (ou seja, “escuro” em Sueco).

 

Desde criança sempre gostei de animais, em geral.

 

Tive peixe, passarinho, patinho, jabuti, cachorro..., ficava encantada com os cavalos, me interessava muito pelos elefantes (até hoje tenho o sonho de visitar o berçário dos elefantes na África). Quando nos mudamos para esta casa, volta e meia ajudava algum bichinho machucado, desde borboleta a, naturalmente, os cachorros, que - naquela época - não havia tantos pela rua.

 

Estudei, morei na Itália, me formei em Administração, trabalhei em empresas, mas o interesse pelos animais continuava dentro de mim.

 

A vinda do Mürck foi o início do desenvolvimento e enorme ampliação do amor e dedicação aos cães.

 

Fiquei completamente apaixonada por esse grande amigo e não medi esforços para dar-lhe uma infância feliz, dedicando muito tempo para levá-lo a longos passeios, brincar com outros cachorros, com crianças, enfim mostrar-lhe a vida.

 

Na época era proprietária de loja em um Shopping, o que o tornou assíduo freqüentador desse lugar, logicamente fazendo suas estripulias, me obrigando a correr atrás dele pelos corredores cada vez que “roubava” algumas roupas para chamar minha atenção.

 

Não preciso nem falar que era obrigada a andar com um kit de limpeza.

 

Ele era muito divertido! Aprontava todas e me obrigava a passar por algumas saias justas como, por exemplo, quando ‘enfiava o focinho’ para saber o RG daquela pessoa que o estava acariciando.

 

Com tudo isso aprendeu a andar de elevador, escada rolante, a me puxar pelo braço em direção à saída quando precisava ir ao banheiro e tornou-se atração do lugar. Claro que toda essa ‘farra’ era autorizada pela administração do Shopping. Eles entenderam o quanto sociável e amigável aquele cachorro era.

 

Inúmeras vezes os freqüentadores se deparavam, no meio do corredor, com uma rodinha de crianças que, junto com uma adulta (eu), estavam sentadas no chão brincando com uma bola lustrosa de pelos pretos - que a essa altura já tinha crescido tudo o que tinha direito. Mürck brincava sentado ou deitado para não assustar com o seu tamanho.

 

Conhecia cada canto daquele lugar e o preferido era sem dúvida o pet shop, aliás, eu só podia ir para a loja depois desse passeio ao qual ele me levava, assim que entrava no shopping para fazer suas gracinhas e ganhar alguns petiscos.

 

Chegada à hora de iniciar uma educação formal, pois não conseguia mais administrar o ‘poderoso Hulck’ no qual havia se transformado. Arrastando-me em zig zag nos supostos agradáveis passeios pela vizinhança, procurei um adestrador.

 

Que medo! Na época o adestramento não era como é feito hoje.

 

Felizmente houve um enorme desenvolvimento nessa área e o “homo sapiens” aprendeu finalmente a fazer jus a essa condição e usou a inteligência para entender os animais, que até então somente eles nos entendiam, mas mesmo assim eram submetidos a aulas agressivas e dominados pela força.

 

Criatura educada?

 

Era muito incomum o proprietário ir junto com o adestrador para ensinar. Por outro lado, não conseguia aceitar a idéia do meu ‘bebê’ sair por aí sem a minha presença. Sentia ciúmes mesmo!

 

Além de querer entender o processo que ele estava começando, como era seu comportamento longe da dona. Desde a primeira aula comecei a seguí-los à distância, sem que me vissem.

 

Nesse ponto ingressei no infindável mundo da informação e iniciei o processo que costumamos dizer “enfiei a cara nos livros” (e posteriormente na Internet) para ‘devorar’ o que encontrasse a respeito de adestramento, primeiros socorros, matilha, características das raças, comportamento, etc...

 

Ao longo de 8 meses me formei em “espiã” profissional, “devoradora” de livros caninos e praticante de adestramento.

 

O meu bebê, nessa ocasião um belíssimo adolescente, concluiu o curso, a quatro mãos, com louvor em alguns quesitos e 0 em outros de menor importância como o de carregar objetos na boca, pois detestava fazer isso.

 

Carpe Diem

 

Nosso relacionamento tornou-se mais que perfeito.

 

Na hora certa o Mürck sabia se comportar lindamente e nas outras eu o deixava viver na sua plenitude, pois não queria um autômato e sim um ser esbanjando toda sua personalidade e espontaneidade.

 

O adestramento faz isso, nos ensina a controlá-los, mas não a automatizá-los.

 

Depois de um certo tempo enfrentei um grande problema.

 

Precisava viajar para os EUA e França para trazer novidades para as lojas, mas onde iria deixar o meu amor? Canil? Nem pensar, não conseguia nem imaginar em deixá-lo 20 dias num Box por maior que fosse.

 

Procura de cá, procura de lá e felizmente um grande amigo se prontificou a cuidar dele na sua casa em Itapecerica onde se encontrava a Tábata, uma graciosa pastora alemã.

Viajei tranqüila, pois sabia que estava em boas mãos.

 

Morri de saudades e no dia seguinte ao meu retorno voei para Itapecerica.

 

Não via a hora de abraçá-lo, beijá-lo, me esbaldar.

 

Assim que abri o portão e entrei no jardim, me abaixei, abri os braços e chamei-o uma, duas, três vezes.....e nada. Ué? Falei com os meus botões, cadê ele? Por que não vem?

 

Comecei a percorrer o gramado que cercava toda a casa. Fui encontrá-lo nos fundos, estava brincando que nem um louco com a Tábata.

 

Chamei novamente, dessa vez me escutou, parou, olhou-me longamente, ‘sorriu’ e voltou a brincar com a Tábata sem me dar nenhuma bola.

 

Filho da mãe!!! Lá estava eu que nem uma tonta, louca para agarrá-lo, morrendo de saudades e ele nem aí.

 

Comecei a rir de mim mesma lidando com os sentimentos, de um lado frustrada no amor próprio e do outro feliz da vida em vê-lo tão bem, tão contente.

 

Mal sabia o que me esperava. Tive que passar o resto do dia corrigindo as traquinagens que o moço fez: como fechar os buracos feitos para chegar até a China, plantando as coitadas das plantas que foram atropeladas nas suas corridas para disputar o 1º lugar e tirando os montes de terra localizados bem na porta de entrada quando manifestava sua vontade de entrar na casa.

 

Na 2º viagem comecei nova procura, pois meu amigo não estava disponível. Através de conhecidos cheguei a uma criadora de Labradores em Cotia onde existiam cercados com boa área para os hóspedes e a companhia de uma fêmea par brincar.

 

Com base na 1ª experiência achei que iria se divertir e fui embora chorando, mas tranqüila. Novamente morri de saudades.

 

Após 15 dias fui buscá-lo. Veio receber-me no portão. Estava solto dentro de casa? Abanou o rabo, fiz carinho, mas percebi que estava estranho, meio distante.

 

Sentamo-nos na varanda e o Mürck ficava indo e vindo. Ora ao meu lado, ora sumia dentro da casa.

 

Após um breve relato fomos embora e agradeci a Deus por ter me orientado a deixá-lo nas mãos desta senhora, uma pessoa boa, responsável e amante dos animais que o ajudou a superar o que com certeza foi um período difícil e sofrido.

 

Ele teve a ”Síndrome do abandono”.

 

Apesar do bom espaço e da companhia canina, ele ficou triste, deprimido, brigou com todas as cadelas do canil e não comia. Preocupada a senhora passou a dar-lhe carne o que também não adiantou. Como último recurso foi solto sendo-lhe permitido circular pela casa e ficar em companhia das pessoas, além de passear diariamente com a filha da proprietária que muito se afeiçoou. (Inclusive perguntou se não queria dar o Mürck). Só assim ele se recuperou.

 

Pois é, o meu príncipe achou que o havia abandonado e começou a adotar nova dona, eis porque no meu retorno estava indo e vindo de dentro da casa, ficou dividido entre a garota que estava dentro e eu, que o havia abandonado, que estava fora.

 

Felizmente, ao chegarmos em casa, voltou ao normal.

 

Nas viagens subseqüentes deixei-o em casa com a empregada durante o dia, meu irmão à noite e um passeador para caminhar uma hora todos os dias. Sentiu a minha falta, mas ficou bem, pois teve toda a atenção necessária.

 

Mudando de Vida

 

 

 Em 2004 mudei de vida e resolvi abraçar definitivamente esse maravilhoso mundo animal.

Enfronhei-me ainda mais nos livros, revistas e Internet, fiz curso, busquei orientação com um exímio conhecedor, Dr. Miguel Bove, grande amigo que por décadas foi juiz e presidente nacional da Associação Brasileira Cães Pastores Alemães com quem, diversas vezes freqüentei exposições e que me deu dicas e abriu caminhos para poder observar as técnicas de alguns veteranos no adestramento.

 

Enfim arregacei as mangas e comecei a adestrar e ser dog sitter.

 Nada como a prática para perceber que nunca saberemos o suficiente, estaremos sempre nos surpreendendo, pois além das já conhecidas diferenças de características entre as raças, cada cachorro tem uma personalidade própria e somente através da observação, paciência e carinho conseguimos entender o novo aluno para alcançarmos resultados satisfatórios.

 

Com o adestramento sendo realizado ao ar livre, nas ruas e praças, naturalmente entrei ainda mais em contato com os nossos amigos menos favorecidos e o meu coração que já havia cedido todo o espaço disponível para o amor aos cães, acabou por sucumbir totalmente.

 

Sem poder abraçar o mundo, mas procurando fazer o que estava ao meu alcance, comecei aos poucos, um de cada vez, a ajudar os que de alguma maneira me escolheram.

 

Cercada por várias pessoas, moradoras do bairro que compartilham do mesmo sentimento, dividimos as tarefas e tive a oportunidade de fazer a minha parte e a que eu mais gosto, ou seja, de conviver e cuidar da parte física, mas principalmente da emocional desses cães que em contrapartida me engrandeceram com seu afeto e proporcionaram um grande aprendizado.

 

Não preciso nem dizer que o Mürck foi fora de série por permitir a entrada de novos amigos em seu território (com exceção do Biondo) agindo como um verdadeiro gentleman. No link “meus amores” estão às fotos  de cada um deles. Todos com final feliz por terem sido adotados por pessoas maravilhosas.

 

Novos horizontes

 

Em decorrência dessa experiência, paciência e do grande amor, além de morar numa casa com bastante espaço, resolvi no inicio de 2007, abrir as portas para um hotel, com vagas limitadas, para hospedar esses “filhos” que tanto amamos.

 

Auxiliada pelo meu braço direito, a Nina, tenho por objetivo fazer com que “se sintam em casa”, deixando-os soltos para brincar, correr, dormir, proporcionando passeio, recreação e muito, mas muito carinho.

 

Enfim: que possam usufruir excelentes férias dessa “vida de cão”.

 

Agradeço com todo o meu ser ao Mürck, o maior amor da minha vida, por ter me dado tantas alegrias e me fazer ingressar nesse maravilhoso mundo novo.